quinta-feira, 20 de março de 2008

Quereres


Há tantas perguntas sem respostas esperando na fila enquanto a gente foge e se diverte.
Há dezenas de medos pendurados nos cabides do closet,
E ainda ficamos espremendo mais inseguranças no fundo das gavetas
Há inúmeros sobressaltos em cada novo dia de aprendizagem e
Por que ainda nos espantamos com velhas descobertas e antigas lembranças?
Há tanta coisa que queremos tanto saber e mesmo assim ninguém nos conta.
Por que será que há tanto lá fora e aqui, ainda, o que se sente é falta?
Por que será que não percebemos que já temos o suficiente e que mal temos espaço para acumular tantos vazios?
Por que ainda não nos demos conta da corrosiva ansiedade que nos mutila?
Será que vamos nos afogar em números e nos perder em vontades?
O que adianta nos condenarmos pelos excessos se passamos grande parte da vida reverenciando pequenas coisas sem sentido.
Por que será que não vemos que lá, também como aqui, as coisas podem ser fartas e também precárias?
Por que será que não vemos que o aqui é uma extensão de lá, e que em todos os lugares o homem está cercado e cerceado?
Se formos ver, temos em abundância aquilo que tanto buscamos, mas sempre queremos o do outro e muito mais. O desejo nos condena e o réu nunca está satisfeito com os crimes que cometeu.
Cada dia nos descobrimos assim, condenados por alguma coisa inexprimível e imersos num turbilhão de quereres sem ter fim.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Vidas no Plural


Vidas no Plural

Tem horas que o amor, chega numa nau iluminada, durante a madrugada fria e estaciona bem perto de nós. Há momentos que o sentimento invade e faz o aquário esparramar. A janela embaça, o coração palpita e o desejo grita.
Tem horas muito especiais, onde as coisas se conjugam na primeira do plural: Nós...

Vejamos...

Dormir com quem se ama é uma benção, melhor ainda é despertar ao lado desta pessoa. Imaginem a cena: acordo de manhã mais cedo e observo o rosto desprotegido e indefeso da pessoa amada, observo seu corpo desarrumado sobre o lençol.
Me transformo em voyeur e vou vasculhar o rosto de quem tanto amo. A primeira pergunta é por que sou tão privilegiado de estar ali ao lado, deitado junto ao cheiro e ao corpo de quem amo, sentir seu calor e sua pele de manhã bem cedo, antes mesmo que a luz do dia penetre em nossa cama.
Sou um navegador embriagado em busca de sua geografia, do relevo e das saliências (im)perfeitas de seu corpo, das fronteiras e marcas que separam cada detalhe do seu rosto.
Todo amante em sono profundo é uma criança indefesa e um sentimento de plenitude e poder maternal nos invade. O que eu ainda posso descobrir? já conheço tudo, mas me ponho a desvendar como desbravador solitário todas minúcias do seu ser.
Quero desvendar seus mistérios...sim seus pequenos defeitos e segredos.
Como queria penetrar nos seus sonhos, saber por onde anda e que fantasmas o assombra!
Me descubro mais apaixonado e amando cada mínima imperfeição percebida: sua palpebras cerradas, sua sobancelha despenteada e falha, seus labios ressequidos, o cabelo despenteado.
Há uma cicatriz pequena, uma marca antiga de uma catapora, o nariz meio grande demais, uma falha entre os dentes. Amo tudo isso e percebo como tudo é simétrico: os braços amassados embaixo do corpo desajeitado, os pequenos movimentos involuntários, as mãos espremidas embaixo do travesseiro, aquele ronco leve...
Como o meu amor só permite que eu encontre beleza e perfeição em tudo que vejo?
Todas as pequenas falhas prontamente são encobertas e corrigidas e o coração acelera a cada movimento de seu corpo.
Não quero que acorde: "Sim, por favor permaneça aí sobre meu domínio" - penso.
Julgo que a pessoa amada me pertence, ali a observo, e ela está cativa e sob meu domínio agora e para sempre. A felicidade me invade, sinto vontade de acariciá-la mais forte, sentir mais seu calor e beijá-la, mas não posso, resisto.
Enquanto seu sonho durar meu sonho se eterniza.
Ali estou eu, feito criança enquanto a mãe lhe prepara o doce preferido, ali estou eu feito basbaque a amar em silêncio a perfeição que protejo. Eu sou seu, ela também é minha, anjo da guarda.

Ausência Sentida


Ausência


Por muito tempo achei que ausência é falta

E lastimava, ignorante, a falta..

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

Ausência é um estar em mim.

E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

Que rio e danço e invento exclamações alegres.

Porque a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 17 de março de 2008

Sobre Toques e Delícias


Alguns amantes, poderia se dizer, candidatos aos périplos do coração e as maratonas da sorte, combinam que as carícias antecedem as intimidades do sexo, como uma espécie de espera e recompensa, ou rito de passagem, para as peripécias tardias e mais intimas dos lençóis.
Mas naquela noite, ali no quarto branco, somente os toques precederam e prevaleceram, antes mesmo do primeiro beijo.
As vezes saímos pela noite adentro a espera de vencer a solidão e se encantar. Pois é, tudo tem seu tempo e lugar.
Antes do olhar de raspão veio um esbarrar de peles, um entrelaçamento intimamente mínimo, mas necessário para que as duas pupilas se percebessem no meio daquela multidão de olhos e pernas, de decotes, bocas, ombros e orelhas.
Uma festa qualquer, daquela que vamos sem sequer, sem sermos convidados e desinteressados mesmo em conhecer o anfitrião.
Tudo começou assim: um frêmito que se originou de um súbito olhar que nasceu de um despretencioso esbarrão ao primeiro encontro. Um olhar já entediado esbarrava a barra do vestido num outro olhar fugidio e blasé que acendia seu quarto cigarro na noite.
Foi ali "sem querer querendo" que ela ficou, parada alguns dois ou três segundos sentindo sua mão, instante fulminante em que o tecido que lhes cobriam já começava a fumegar e se medissem as temperaturas, iriam perceber que seus corpos ardiam de forma desejante e desejada.
No começo foi assim, depois viria a via crucis do corpo. Seus dedos bobos alisaram seu ombro direito e ela permanecia ali, assombradamente envolvida de corpo inteiro. Uma pele muito branca como de uma deusa talhada em mármore a luz de candelabros e velas era tocada por
uma mão morena, um braço forte de ebano curtido ao sol das 12 horas em algum lugar dos trópicos abaixo da linha do equador.
Um sorriso e um olhar de cumplicidade se seguiram e o contraste sensual do preto no branco,
no bronze no marmore provocaria arrepios e delírios dos mais conservadores, castos e assexuados. Foi questão de segundos para eles se apaixonarem. Foi amor e desejo ao primeiro toque. Esbarrar para se apaixonar.
E logo vieram pequenas palavras soltas ao acaso. Mal se escutavam e um tal de eu bebi vodca demais de um lado, misturado com um não se preocupe porque eu estou adorando do outro e um som de está muito quente aqui dentro e eu tinha pensado a mesma coisa... que não se sabe bem ao certo se eles se comunicavam com palavras e gestos ou sussuros e olhares.
Não se desgrudaram mais, ele a acompanhou para pegar a bolsa com a amiga, segurando e sentindo sua mão delicada. Ela olhava pra trás e retribuía sorrindo em lábios e pensamentos. Saíram e ele disse antes que atravessassem a rua um eu te adorei desde o primeiro instante que minha mão percorreu você.
E este eu te adorei tão sincero pareceu para ela, uma ameaça de encantamento sem volta, um atalho para o rio em busca do mar, um convite para uma vertigem adiada.
Ela percebia uma certa timidez nas suas palavras, que contrastava com seus dedos rápidos vasculhando em silêncio as brechas do seu vestido. Parece que seus corpos não podiam mais esquecer a memória do primeiro encontro e, então, saíram pra ver a noite.
Por descuido ou por malícia das horas, já se fazia dia e raios de luz cruzavam o horizonte. Caminhavam pelas calçadas como se pisassem sobre a areia fina da praia, riam e falavam alto, coisas incompreensíveis que dizemos quando caímos em ancantamento profundo.
Fingiam para si mesmos que o ronco dos motores acelerados dos carros fossem roncos de ondas do mar a invadir e inundar a cidade inteira.
Foi aí que ela sugeriu que eles subissem ao seu apartamento. Antes de cruzar o enorme portão, ele segurou levemente sua mão e parecia dizer em silêncio um "quer ficar comigo pra sempre neste instante" que a vertigem selvagem quase enfraqueceu suas pernas, e ela encantada respondeu em silêncio um efusivo "para agora aqui e todo o sempre...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Sozinha ou solitária?





Vou inventar um nome e um pequeno relato biográfico na terceira pessoa. Muita gente conhece alguém assim. Nossa personagem poderia ter sido retirada de um destes seriados que constroem um retrato familiar atípico. Na verdade as famílias hoje têm os mais diversos tipos de arranjos e formas e parece que em matéria de criatividade poucas formações sociais foram tão longe...

Luiza: 37 anos incompletos, várias vezes "casada" e recentemente mais uma vez separada. Mora só desde os 28, quando saiu da casa das amigas com quem dividia para alçar seu vôo solo. Conheceu Marcos por quem se apaixonou e queria formar família. Ele recebeu proposta de ir morar no Canadá. E lá se foram suas esperanças. Depois de muito desconsolo, Luiza percebeu que não tinham nada a ver e que seu novo cafofo era muito mais aconchegante que imaginava.
Luiza está sempre namorando, mas também sempre se separando.
Não que ela seja uma mulher difícil, não que ela tenha defeitos inconfessáveis ou esteja predestinada a viver só. Talvez Luiza seja uma caricatura bem humorada das mulheres independentes de sua idade. Seus pais são separados. Sua mãe casou de novo, seu pai conheceu uma mulher 10 anos mais nova, mas que dois anos depois perdeu em um atropelamento.
Por ironia do destino, ele também mora só, como Luiza, mas em uma pequena casa alugada em um bairro qualquer da classe média paulistana.

Luiza é arquiteta e trabalha com decoração, adora criar ambientes e projetar sonhos, como ela diz. Seu apartamento é um dois quartos bacaninha, com sala espaçosa e visual clean. No centro, duas poltronas assinadas, encarando uma a outra, uma mesa de centro sólida e espaçosa. Mais ao fundo, alguns pufes de canto coloridos contrastam com as paredes brancas e vazias de imagens, sombras e quadros.

Sobre a enorme mesa se esparramam suas revistas e livros de arte, seus antigos CDs de Jazz, um cinzeiro para as visitas e alguns objetos originários da última viagem.
Na sala ela prefere sentar no chão. Encosta as costas em um seu pufe de estimação e fica folheando as páginas das inúmeras revistas que ganha e assina. As vezes recebe algumas poucas amigas mais próximas ou um ou outro rolo ou namoradinho em que ela confia um pouco mais.

Luiza não é solitária e nem sozinha, mora só por opção e não lamenta ou sofre com isso.
Se isso fosse cem anos atrás, ela seria seriamente estigmatizada, se morasse em alguma pequena cidade, muita gente falaria pelas costas e condenaria seu estilo de vida, mas Luiza mora em um grande centro, em um destes prédios de quatro apartamentos por andar onde mal se conhece o vizinho de porta. Ela é uma estranha para muitos moradores de seu condomínio vertical e sua janela dá para um enorme estacionamento. Nenhuma outra janela indiscreta a espia nas madrugadas adentro.

Seu quarto revela um pouco mais de sua alma. Ali há mais conteúdo e formas, segredos e memórias, gavetas e fotos. Seu quarto é literalmente seu baú. Quando vai ler ou dormir ali, ela fecha a porta para não ser incomodada pelo silêncio e luz do resto da casa. Luz que ela insiste em deixar acesa 24 horas do dia, 30 dias por mês, desde que seu último namorado bebeu demais, a ameaçou e bateu a porta para nunca mais ligar.
O nome dele não nos interessa agora, o curioso foi que ele chegou a se comunicar. Mandou dois emails de desaforo e ainda abriu o jogo: admitiu que a traía constantemente com uma ex.
Luiza naquela noite não dormiu, ficou sob a luz e presença de uma velha luminária que sua vó tinha lhe dado na adolescência. No outro dia acendeu duas velas e rezou. Não era praticante, mas foi educada católica. A luminária do corredor, esta está acesa e estrategicamente posicionada.

Mas voltemos ao seu baú.
É um quarto confortável com vista para o horizonte cinza da cidade. Na janela, muitas vezes se debruça enquanto ouve Ella ou fala no celular. A televisão fica no quarto de dormir, de frente pra cama king size que recentemente comprou. Gente que mora só adora gastar com cuidados e coisas pessoais. Gostam de se sentir valorizados, se presentearem e sentirem que merecem.

Mulheres solteiras morando só são uma população que não cessa de crescer. Talvez as mulheres se sintam melhor e mais adaptadas a casa, talvez não sejam mais tão dependentes de um homem e de um torax protetor, talvez até elas sintam falta de um e escrevam páginas lacrimosas em seu diário, durante aquelas longas noites de vento frio. Talvez... , mas Luiza é uma mulher forte, muito mais esperta e independente que muito homem por aí e prefere a companhia de seu jazz e de sua luminária a solidão entediante de um casamento de aparência.